2025: Os melhores, piores e os dos meio!

Os Melhores Filmes de 2025

A Melhor Mãe do Mundo, Brasil, 2025

    Em 1923 o intelectual italiano Ricciotto Canudo descreveu no Manifesto das Sete Artes uma classificação das expressões artísticas humanas: Arquitetura, Escultura, Pintura, Música, Literatura, Dança e o Cinema, e certamente esta divisão não é exatamente consensual na classe artística, especialmente por deixar de fora algumas formas de expressão que são muito apreciadas, tal como Teatro, Coreografia, Ilusionismo, Fotografia, HQ, Arte Digital, dentre outras.

    Contudo, há uma boa explicação para defender Canudo. O Cinema por exemplo. Ele é uma mistura de várias outras expressões artísticas, tal como a literatura para a confecção dos seus roteiros e direção; Fotografia para expressar a imagem em tela; Coreografia para a atuação e montagem; A montagem e edição certamente são expressões de Arte Digital. O Teatro, a Coreografia, a Fotografia também são composições de outras artes, das chamadas sete artes. Enfim, entender a classificação de Canudo como sendo as artes que podem compor todas as demais não é exatamente um erro.

     Expressar-se através das artes é uma forma de representar uma visão, as ideias, os símbolos de uma sociedade ou de um ou mais indivíduos. A arte também pode apresentar as habilidades humanas, sendo o resultado de novas capacidades aprendidas e desenvolvidas. Aqueles que a produzem podem colocar em prática os seus conhecimentos e também a sua sensibilidade, enquanto aqueles que consomem, que são afetados pelas artes, criam também sensibilidade para aprender, sentir, para serem impactados por aquela arte que os atinge.

   Este prólogo serve para afirmar que quem é impactado pelas artes, no caso, pelo Cinema, é capaz de ter a sua visão sobre o mundo e sobre os indivíduos transformada. Por exemplo, neste ano de 2025 o filme mais curtido por este caderno de cinema foi a produção brasileira dirigida pela cineasta Anna Muylaert, "A Melhor Mãe do Mundo".

    Pode-se afirmar sem dúvidas que os expectadores deste Cheiro de Cinema não convivem na realidade que convivem as crianças, a mãe e nem o pai, personagens do filme de Anna. Também é bem provável arriscar que nem Muylaert está imersa nesta realidade. Mas como pode um filme, uma ficção, produzida por uma pessoa que não está envolvida na realidade daqueles personagens, tocar tão profundamente nos seus expectadores?

    A resposta certamente não é objetiva, e, talvez sequer contenha toda a verdade. Não por conter mentiras, mas sim talvez por não ser possível alcançar o sentimento que foi gerado nos expectadores desta produção artística cinematográfica. Contudo, custar tentar analisar?

    Na atualidade há um elemento que influencia muito a forma como se consome a arte cinematográfica: o ambiente físico do Cinema. Assistir a um filme numa sala de cinema é muito diferente do que assistir em casa. O clima comunitário que se forma em torno de cenas de um filme certamente influencia quem está curtindo a um filme. Quem não dá risadas quando outros também riem? Ou, quem não se espanta quando a pessoa ao lado aperta a sua mão numa cena eletrizante de ação? Além deste efeito manada, a concentração que a sala de cinema evoca é provavelmente muito maior que em casa, visto que, por exemplo, não é legal usar o chupa cabra da concentração, o celular, durante uma exibição numa sala de cinema. Neste contexto, curtir um filme tão bem fotografado como é a Melhor Mãe do Mundo certamente faz muita, mas muita diferença se curtido numa sala escura. Inclusive, o Cine Passeio em Curitiba é certamente o melhor lugar da cidade para assistir a um filme. 

   Dentre outras (sim, outras, visto que o filme foi escrito por três mulheres, Mariana Jaspe Grace Passô e Anna Muylaert), Anna escreve um filme focado no sentimento de uma mulher que busca fugir de um homem agressor, mas como não está só, a sua jornada é acompanhada por duas crianças, sua filha e seu filho, que além de terem a sua realidade transformada, transformam indelevelmente também a mãe. 

    As cenas de compreensão da filha para a atitude da mãe é de cortar o coração. A jornada desta melhor mãe do mundo é também uma representação sociológica, que dentre muitas realidades mostra a dureza da vida de habitantes muito pobres numa cidade grande, do quanto as mulheres são afetadas por homes e por uma sociedade machista e agressiva. Também há momentos de pureza e alegria: as pessoas se ajudam; as pessoas são capazes de superar dificuldades enormes, aparentemente instransponíveis. A dura realidade não é páreo para uma pessoa determinada e corajosa... Ao menos na ficção, mas também na esperança de que possa ser reflexo da realidade.

    Agora, chegamos em Shirley Cruz, a atriz que interpreta a mãe, a Melhor Mãe do Mundo. O coração do filme está nela. A interpretação desta mulher é inacreditável. A forma ambígua como ela se relaciona com o marido, vivido pelo também excelente Seu Jorge, traz uma grande verdade para a personagem, pois em quase todos os momentos a sua atuação na fuga é muito crível, mas quando ela recaí é possível ter certeza que isso realmente poderia acontecer com uma mulher que ao mesmo tempo que sofre, ama.

    Shirley e as crianças, e especialmente Rihanna Barbosa, a menina, a mais velha dos filhos, fazem uma jornada por uma São Paulo pouco conhecida, mas que está escancarada para os olhos de quem transita pela cidade. Os trechos em que a mãe puxa o carinho carregado pelos filhos é de uma força impressionante.

    A Melhor Mãe do Mundo é um dos exemplos mais importantes de como o cinema pode impactar os seus expectadores, e também por isso foi escolhido por este caderno de cinema como o Melhor Filme de 2025 do Cheiro de Cinema.

   O ano de 2025 foi muito importante para este caderno de cinema. Curtimos 140 filmes, dentre inéditos, clássicos e lançados em outros anos, e tudo ficou registrado na plataforma Letterboxd. Inclusive, a lista completa dos filmes está aqui: 


    Também, o site Letterboxd apresenta uma série de estatísticas sobre estes filmes que foram curtidos:


    Enfim, que venha 2026!



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jacozao.com
Curitiba 2025


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