Filme (3.5): "Aquarius", Brasil, 2016 [2016]



Lançamento em 2016
Direção de Kleber Mendonça Filho
Elenco: Sonia Braga, Maeve Jinkings, Irandhir Santos
Gêneros Drama, Suspense
Nacionalidades Brasil

    Jakson Böttcher, O Jacó
Barigui, às 13:20

     Depois de "O Som ao Redor" [2012],  a carreira de Kleber Mendonça Filho tornou-se luminescente neste escuro mundo do cinema comercial brasileiro, e agora em 2016, iluminou-se de vez quando da produção deste "Aquarius", estrelado pela inesquecível atriz Sonia Braga.

    Verdade que esta nova obra não é tão brilhante e chocante, digamos assim, quanto a primeira de 2012, todavia, ganhou uma visibilidade inacreditável. Justificável não somente pela sua boa qualidade, mas sim pelas polêmicas envolvidas extra-filme.

   O filme foi indicado à Palma de Ouro de Cannes 2016, mérito alcançado por poucos brasileiros, e no dia da premiação - vencida pelo filme britânico "Eu, Daniel Blake" - o elenco e os produtores do filme brasileiro fizeram um ato de desagravo ao momento político do Brasil, contra o impeachment da então Presidente da República Dilma Rousseff (!). Isso repercutiu como rastro de pólvora aqui nas terras tupiniquins.
  
    Tanto foi o efeito e repercussão que o filme é (pois ainda está em cartaz) sucesso de público. Por outro lado, negativamente, disputou com outros 15 filmes e perdeu a indicação brasileira para concorrer ao Oscar 2017, vencido pelo desconhecido "O Pequeno Segredo". E não foi só isso. O filme teve classificação indicativa 18 anos imposta pelo Ministério da Justiça, com a justificativa de "situação sexual complexa". Injustificável, inclusive.

   Além dos aparentes efeitos de retaliação ao filme impetrados pelo grupo político que obteve sucesso no processo de impedimento da presidente Dilma, encabeçado pelo ex-vice Michel Temer (a equipe que escolhe o indicado brasileiro ao Oscar é subordinado ao Ministério da Cultura), o filme obviamente encontrou um grande contingente de odiadores, que sem avaliar tecnicamente a produção já a odeiam de ante-mão, talvez até mesmo sem assisti-la. 

   É sintomático as observações que os leitores de um grande portal sobre cinema no Brasil fazem sobre o filme, que exemplarmente seguem abaixo (Fonte. AdoroCinema):







     Certo, mas o filme vale a pena? Mereceria a indicação brasileira para concorrer ao Oscar? As críticas ao roteiro "político" são justificadas?

    Bom, o roteiro tem uma complexidade muito dramática, ou seja, não é ficção, não é aventura, não é romance, não é comédia. É drama mesmo. A história gira em torno da resistência de Clara (Sonia Braga), que ao ser assediada por uma construtura que tem o interesse em construir um novo empreendimento imobiliário no local, não cede aos insistentes, ilegais e imorais apelos da empresa. 

    O mérito do filme não é o de revelar um embate social entre o interesse imobiliário versus uma cidadã, uma moradora, mas, sim aprofundar-se nas razões psicológicas, pessoais, nas razões do âmago que fazem a personagem Clara resistir e não querer vender o apartamento. É disso que se trata o filme. Inclusive, a confusão que os críticos da produção cometem é de não entenderem isso, que não se trata de uma discussão social, mas sim pessoal: o foco é Clara e suas nuances psicológicas. 

    Por isso, por esta profundidade que o filme alcança - com sucesso - sim, ele é merecedor dos aplausos que recebeu em Cannes e sem dúvidas merecia a indicação ao Oscar. 

    Kleber Mendonça Filho deixa uma assinatura própria, pois tal como fez em "O Som ao Redor", o problema social enfrentado pelas personagens é minimizado por suas agruras internas. Inclusive, "O Som..." e este "Aquarius" repetem-se em vários momentos, tal como a personagem de Irandhir Santos: antes um segurança, agora um salva-vidas; o traficante é interpretado pelo mesmo ator; a temática imobiliária como pano de fundos, dentre outros. 

    Enfim, a frase final proferida pela personagem Clara dirime todas as dúvidas que poderiam pairar sobre as intenções do filme:


"...eu prefiro dar um câncer do que ter um..."

    Vejam o filme. Sério.


Classificação: Três e meia Narigadas!

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